Rito Brasileiro, Nacional e Diferente

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Rito Brasileiro, Nacional e Diferente



                                                                                  
 

É enganoso apreciar um rito maçônico reduzindo-o à ritualística dos graus simbólicos. Um rito, para ser efetivamente compreendido, deve ser estudado sob amplos aspectos: origens, história, doutrina, métodos didáticos e, claro, ritualística (mas não apenas ritualística). Havendo altos graus – estes não podem ser desprezados. 
Por exemplo: o Rito Brasileiro de Maçons, Antigos, Livres e Aceitos: distingue-se por certas particularidades doutrinárias, manifestadas nos métodos e meios de estudos próprios que emprega nos altos graus. Nos graus simbólicos segue a tradição maçônica, ortodoxamente, sem diferenças significativas para os ritos constituídos no seio do escocesismo e sofre (como os demais ritos-irmãos) a influência da confusão de rituais (não de ritos). Desse modo, uma apreciação do Rito Brasileiro, limitada aos rituais dos três primeiros graus, estará sujeita ao erro de não encontrar diferenças entre esse rito, formado no Brasil, e seu co-irmão ou tronco, o Rito Escocês Antigo e Aceito, com raízes na França.
O Rito Brasileiro tem por fundamento o Apelo de um Século, segundo nome empregado por Álvaro Palmeira, posto que, formulado em 1834, só seria atendido em 1968, quando o Rito, após a criação em 1914, teria sua implantação vitoriosa. Todos conhecem, mas convém repetir. Naquele ano foram publicados, em português, os quatro pequenos volumes da Biblioteca Maçônica ou Instrução Completa do Franco-Maçom (do maçom Miguel Antônio Dias, pseudônimo, Um Cavaleiro Rosa-Cruz), na realidade rituais do Rito Francês destinados ao Grande Oriente Lusitano, como nos informa Kurt Prober na apresentação do excelente Rituais Maçônicos Brasileiros (Joaquim da Silva Pires – Londrina: Ed. Maçônica A Trolha, 1996, p.19). No prólogo da Biblioteca – apelo especial aos portugueses e brasileiro:
“(…) a fazer um Rito novo independente que, tendo por base os Graus Simbólicos e comuns a todos os ritos, tenha contudo os altos graus misteriosos diferentes e nacionais”.
Eis o fundamento doutrinário: um rito novo e independente, tendo por base os mesmos graus simbólicos comuns a todos os ritos, mas os altos graus diferentes e nacionais, formulando uma didática maçonicamente inovadora que, sem desprezar o valioso instrumental de lendas, ritualísticas e símbolos tradicionais da Maçonaria, adota métodos e meios próprios, proporcionados pelo Século.

Assim a justificativa da existência e da denominação do Rito Brasileiro não se procede pelo exame dos rituais dos graus simbólicos. Efetivamente não existem diferenças formais significativas na ritualísticas dos graus simbólicos. A justificativa se encontra nos altos graus e nas diferenças doutrinárias manifestadas desde os graus simbólicos. O Rito, criado em nossa pátria, tem existência inovadora, sim, constituindo-se em significativa via de progresso à Ordem Maçônica, que não pode ficar vinculada a idéias ou a diretrizes de organizações estrangeiras. Para entender e justificar o Rito Brasileiro, deve se conhecer a didática dos seus altos graus.
Nos graus simbólicos (Aprendiz, Companheiro, Mestre Maçom), o Rito Brasileiro segue, ortodoxamente, a Maçonaria tradicional. Tal postura é necessária à regularidade universal e do Compasso; a fórmula do Suprem Arquiteto do Universo (assim se diz no Rito: Supremo e não apenas Grande); a lenda do terceiro grau; os diálogos estereotipados (Templo coberto, todos os presentes maçons, etc.); acendimento de luzes, transmissão da palavra, etc., e isso, aparentemente, conduz a uma indiferenciação e, sem dúvida alguma (efeito dos tempos em que ritualístico de ritos diversos, assim presentes, em seus rituais, elementos do Rito Escocês Antigo e Aceito, do Rito Adonhiramita e do Rito de York, segundo o Ritual de Emulação.
Contudo, nos altos graus, é um rito novo e independente, por dois princípios: primeiro, conciliar tradição e evolução; segundo, conciliar Razão e Fé.
Nos três primeiros graus, a ortodoxia maçônica (tradição). Além do grau três, método e doutrina próprios (evolução), segundo duas diretrizes: uma, estudar os magnos assuntos de interesse da Pátria e da Humanidade, empregando as ferramentas do Século (Ciência, Filosofia, Arte, Teologia, etc.), diminuindo a influência do tradicional método didático maçônico de lendas, símbolos e alegorias: outra, emprestar, a cada estudo, a cultura local. Se bem observado, só da consideração desse princípio (conciliar tradição e evolução), com suas duas diretrizes (“ferramentas do Século” e cultura local), bem se vê como se distingue o Rito que, inclusive, com as mesmas diretrizes, pode ser adotado universalmente.
Segundo: conciliar Razão e Fé. Sim, no Rito Brasileiro há preocupação em se eliminar excessos de superstição que tantas vezes enredam os ritos maçônicos. O Rito declara-se teísta, o que significa afirmar a existência de Deus e afirmar a Providência e Revelação Divinas. Um maçom que pratica o Rito Brasileiro, se bem compreendeu o método, dedica-se a Deus, por meio da Teologia e da Liturgia, e não da magia ou da superstição. O tema é longo: exige estudo e reflexão.
Enfim, o sistema de 33 graus pode parecer mera cópia afrontosa. Apenas parece, não é. Adotou-se o sistema de 33 graus como continuidade de uma forma – de imenso prestígio no Brasil maçônico do Século XX – fórmula que (no entendimento dos maçons que praticam o Rito) precisa ser atualizada com o Século, mas conserva uma índole e um carisma que não podem ser desprezados. Tantos e tantos comportamentos humanos, anotados pela Sociologia e pela Ciência em geral, procedem pelo mesmo método: adotar o anterior, atualizando-o com a época ou as necessidades. Não há a preocupação de ser original. Preocupa-nos a eficiência.
Assim, irmãos, não tenhamos medo da História. O Rito Brasileiro de Maçons, Antigos, Livres e Aceitos, criando, mas ainda em formação em nossa Pátria, possui um sistema doutrinário fortíssimo, muito bem estruturado, apto à atender às necessidades dos séculos vindouros. Temos o poder das soluções locais, independentemente do que possa ser ditado por órgãos estrangeiros; temos o uso das ferramentas do século e o orgulho de sermos brasileiros, capazes de formular (sem romper com a tradição) doutrina própria. Velha lição francesa, divulgada pelo mestre Álvaro Palmeira: a Maçonaria não tem pátria – o maçom a tem. Os Séculos vindouros dirão.

Fernando de Faria (Rio, Vila Izabel, julho de 1996)


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